terça-feira, 30 de setembro de 2014

UM QUARTO DO QUE PODERIA SER. Era um pouco dela outra - a mesma onde sempre se refugiava - atormentada pela balbúrdia do seu antigo corpo jovem. - Ah! ... Gritou consigo mesma enquanto apertava a própria nuca. Se encontraram sem querer, nas lentes espelhadas dos óculos dele, estatelados escandalosamente no chão. Ficou assustada. Estava corada e não sentia vergonha. Teve um ímpeto bem humorado indisfarçável. Saiu correndo sem querer - ou não - e pisou com o salto gasto na lente que, de tão cafona, era muito, muito sexy. Era um jeito de acabar com tudo ali. Não podia se ver assim. - Mas você... - Eu? Não, essa não sou eu, você está me confundindo. Enfiou com força o dedo no buraco do colchão empoeirado e rasgou de ponta a ponta. Colou o chiclete atrás do ventilador. - Hoje eu sou uma pessoa extremamente asseada. E os perfumes bons são gastos em casa. Abriu a bolsa, perfumou-se para si e saiu requebrada com as coxas bem expostas. Chovia. Saia fumaça das suas mãos. Já quase na esquina, quando pensou em olhar para trás, enfiou a mão no pescoço e arrebentou o colar que tinha herdado da avó. Isso fez com que se ajoelhasse e ficasse ali. Catando as pérolas por algum tempo.